Total de visualizações de página

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O periodo de espera em JBay... 2015

Espera…


    A relação do surfista com o mar é, essencialmente, pontuada pela espera… Não há viva alma que, uma vez sobre uma prancha, não se viu obrigada a cultivar uma relação com o tempo alheia ao imediatismo ou à imposição da vontade… Aguardamos a ondulação prevista, a série anunciada, a mansidão do fim de tarde e a promessa de uma viagem sonhada em que o mar inteiro será somente nosso… Com a idade e a imersão no mundo do trabalho, o desejo de uma suspensão nos afazeres quase sempre encontra endereço no vai e vem desocupado da arrebentação… Eu, confesso, gosto de tudo que envolve a onda surfada… da remada, por vezes, cansativa; de sentar na prancha e reencontrar a tranquilidade da respiração perdida… sobretudo, eu tenho especial afeição pelo momento em que assisto à onda levantar… Os trinta segundos que me separam do drop são, inevitavelmente, o instante em que o tempo suspende o seu fluxo para refazer, mais uma vez, a comunhão com a natureza… o futuro decide-se ali… no posicionamento certo…quando tudo acontece…  É preciso, pois, encontrar a linha da onda… não lutar contra o mar, mas, sim, entendê-lo… compreender os seus desejos e, com sorte, corresponder àquilo que, a mim, se apresenta…

A espetacularização do mundo

    Para quem ama surfar e apreendeu a ver beleza na intensidade de um campeonato, creio ser impossível permanecer, sem um sorriso no canto do rosto, quando somos obrigados a esperar pelo momento em que o mar permitirá, enfim, a realização das baterias previstas… No intervalo de uma chamada e outra, os fóruns especializados são invadidos por um cem numero de postagens ansiosas, irritadiças contra tudo e contra todos… Sejamos francos… quando o alvo é o comissário do Tour… bom, vá lá…. sempre concordo com os desagravos, corretos ou não… Confesso que nutro especial implicância contra o camarada… Surfista mediano que se regozija em poder decidir quando o espetáculo deve começar…
    O fato é que a minha atração pelo surf competitivo, curiosamente, não encontra razão no ritmo compassado ao qual qualquer surfista ordinário vê-se obrigado a viver, dia após dia, em todas as praias do mundo… Surf competitivo, quase sempre, é a luta do surfista contra os seus limites físicos e mentais… Aguentar a pressão dos trinta minutos, explorar cada pedaço da parede, encaixar uma manobra na outra com a precisão de quem não pode errar são o contorno de uma luta sem fim do homem consigo mesmo… Qual a fronteira que limita a condição humana? Quem será capaz de driblar o destino e transformar-se em sujeito de sua vontade? As perguntas que antecedem a um campeonato, quase sempre, incidem no amplo universo da existência trágica, na qual cada um dos trinta e dois integrantes do tour se põem à prova a fim de trair as expectativas que, teimosamente, insistem em determinar o destino…
    Não mintamos…  quando uma etapa começa… com todos ali… as cartas são lançadas e, por mais que esperemos a surpresa, raro é encontrar algo fora do roteiro previamente escrito… Aquele cairá na terceira rodada, o outro chegará nas quartas… A semi-final ocorrera com os mesmos de sempre… Para mim, quem está nesse barco há muito, qualquer campeonato torna-se digno de lembrança quando algo escapa do previsto… Na verdade, o que menos me interessa é a espetacularização da contenda… Entenda-se espetáculo como sinônimo de uma previsibilidade em tom exagerado… Perceber o fim anunciado tem o mesmo gosto de assistir a um show em que conhecemos todas as músicas, sua seqüência e os seus arranjos… Quando a novidade resume-se ao jogo de luzes e a intensidade dos decibéis… o mundo parece-me sem graça, sem aderência…Há, pois, certo tédio em tudo isso… Afinal, o espetáculo sempre é, para mim, reflexo do previsível, espelho invertido de uma espera curiosa, de um aguardo verdadeiro pelo que está por vir… Campeonato quando é espetacular, no sentido que dou ao termo, é sinônimo de anti surf…. uma traição contra aquilo que aprendi e aprendo cada vez que entro no mar… Não sei bem por quê… mas o comissário do tour, e seus comparsas, constituem uma espécie de demiurgo do eterno retorno do mesmo… algo para lá de desprezível…

A sorte da reversão da medalha…`

Nos últimos dois anos, impulsionados pela troca de guarda, o Tour ganhou nova coloração. Afinal, ninguém movimenta o PIB do surf mundial sem que estruturas sejam abaladas, novidades surjam e verdades inesperadas se consolidem no lugar de certezas inquebráveis…
O tempo tem um curioso efeito, em tempos de fluidez, de transformar o tempo decorrido há pouco em pintura rupestre… 2014 terminou, Gabriel sagrou-se campeão… cinco etapas depois, o jogo é outro e as apostas mudaram de mesa… A cada parada do Tour consolida-se a sensação de que há muito tempo não estamos diante de um campeonato tão aberto de possibilidades… Ainda que algumas coisas ainda permaneçam previsíveis, a balança em 2015 pende sensivelmente à surpresa…
Vejamos JBay… Felipe perder, possível… Owen cair na terceira fase? Sério? Depois do que vimos em Fiji? Alejo voltar com tanta força? Torço por ele, mas o menino parece ter decidido tomar às rédeas do seu destino… E Gabriel… Bom, Gabriel parece gostar de contrariar o que se espera dele…
O surf competitivo, nesses tempos de espera, ganhou novo contorno para mim… E admito: não tenho tido nenhuma pressa em ver o ano terminar…

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Rio Grande do Norte, inverno de 2015

A sentença…

Depois de ter envolvido com o trabalho e viagens e mais viagens para dar cabo de tantas obrigações, a minha mulher, olhos secos e invejável autoridade, sentenciou: nessas férias escolares, celulares e computadores estão vetados… Quinze dias com as crianças… Você pode escolher qualquer lugar do mundo desde que ele diste menos de três horas de São Paulo…
O tom grave somado à tranquilidade com que ela emitia cada uma das palavras do enunciado resultaram em um esforço para cancelar este ou aquele compromisso… Uma vez acuado, restou-me decidir para onde viajar… A única certeza, iríamos para o mar… 
Nomes de praia, resorts, hotéis acumulavam-se em discussões acaloradas ao redor dos jantares… Entre uma sugestão e outra, um destino, há muito tempo visitado, ganhava contorno de modo a dissipar dúvidas… Rio Grande do Norte… Nordeste… Brasil…

O mistério potiguar…

Há muito, eu tenho vontade de retornar para Natal, Pipa, Bahia Formosa… 25 anos atrás, estive por essas bandas, num verão, época de boas ondas para fugir do frio do Sudeste e, à época, viver  uma das minhas primeiras viagens de surf… A confusão da memória estabelecia-se sobre longas ondulações para direita, água quente e poucas pessoas a dividir a arrebentação… De todas as viagens que fiz para pegar onda, Rio Grande do Norte reserva-se um lugar para lá de especial…Os afetos, creia-me, não encontram uma razão definida para eleger esse ou aquele momento como especial, um ou outro endereço com cheiro ou coloração de casa… O fato é que, além de toda aventura de menino, a empatia pelos surfistas da terra corroboraram e muito meus laços com as praias daqui… Não sei ao certo se o movimento não se fez ao contrário; isto é, se minha admiração por Jadson reforçou-se pelos meus sentimentos por Natal ou, sejamos francos, o contrário se faz explicação… 

O aeroporto, o carro alugado e a prancha comprada…

A chegada em Natal anunciava-se no novo Aeroporto da cidade, inacabado, mas muito bonito… O calor era sensível… Havia reservado um carro para família com o pretexto de ganharmos liberdade de locomoção… Em mim, o plano secreto… Comprar uma prancha de um shape local e,  antes do sol raiar, pegar a estrada para surfar as ondas de adolescência… Sem computadores, celulares, estava decidido a transportar-me, ainda que falsamente, para um tempo em que ligar para casa implicava a sorte de um orelhão que funcionava… 
Em frente ao rapaz da locadora, a minha mulher logo estranhou o pedido…”um carro com Rack, por favor”… Não durou cinco segundo para que ela, então, interpelasse a conversa… “João, por que um rack? Você não trouxe nenhuma prancha…” É verdade que as recomendações médicas somadas a uma recente e voraz crise na coluna, indicavam a impossibilidade de surfar como antigamente… Mas, vocês sabem, água quente, ondas de um metro e camas confortáveis de um bom hotel são capazes de anular qualquer prescrição…Olhos fixos um no outro…. E ela sorriu… “Você vai comprar uma prancha, não é?”… Vinte anos de casamento…. Há manias que somente se revelam com intimidade… Uma das minhas, desde o tempo de menino, comprar, quando possível, uma prancha local… Para mim, a onda de um lugar molda, como ninguém, as mãos de quem vive e faz as pranchas à beira mar… Embora nem sempre seja verdade… para mim, surfar com pranchas forjadas nas praias em que viajo provocam a mesma alegria de comer a comida da terra… Em tempo de globalização, opto, quando possível, pelo caráter da região…

A prancha…

Após o primeiro pouso no hotel, crianças alimentadas, a constatação de que, em julho, podemos encontrar água quente e temperaturas a beirar os 30 graus, voltei-me com atenção para Ponta Negra… Queria ver o mar, conversar com alguém que compreendesse aquela maré e, mediado pela cumplicidade, dissesse qual o melhor local para comprar uma prancha… A arrebentação estava cheia, ondas irregulares quebravam, uma após a outra… Surfistas de todas as idades espalhavam-se pelo line-up… A quantidade de fishes era impressionante… A soberania dos pequenos foguetes de três quilhas, estreitas, com mínima flutuação parecia encerrada… O surf transformou-se, em Natal, numa atividade familiar… Pais e filhos, homens com sobrepeso e algumas e excelentes surfistas brincavam em ziguezague… Logo encontrei Pedro, um carioca que morava no Rio Grande do Norte, há duas décadas… Segurava uma pequena quadriquilha, a qual lembrava-me àquelas produzidas por Sérgio Peixe, no idos dos anos 80… Conversa entabulada… Endereço de uma loja anotado…  Em duas horas, lá estava eu com uma incrível 6,2…É notável saber que algo do companheirismo de outros carnavais ainda existe em tempo de individualismo feroz e localismo acirrado… Por alguma razão, o Nordeste está, pelo que vi, muito distante daquilo que vejo em praias do Sul e Sudoeste brasileiros

O desejo…

É incrível saber que, aos quarenta anos, uma nova forma de encarar a vida ganha corpo… Desejava pegar todas as ondas possíveis, mas também alimentava um desejo secreto de encontrar, por acaso, nas praias do Rio Grande do Norte algum herdeiro legítimo dos grandes surfistas daquelas veredas… A cada onda surfada, fosse em Natal, fosse em Pipa ou Bahia Formosa, olhava de canto de olho para o lado à procura da raça de Jadson Andre, da modernidade de Ítalo, do estilo de Fábio Gouveia…
Duas caídas por dias, uma pela manhã, outra pelo início da noite… As semanas passavam em compasso lento… A cor do mar lembra a da Indonésia… Para não fugir à regra, as crianças tinham o seu momento nas ondas… Divertiam-se no mar delicado do Rio Grande do Norte… O surf no Brasil, definitivamente, tornou-se uma atividade familiar… O curiosos é perceber que, no limite, não me encontrava diante daquele sentimento provocado ao redor do título de Gabriel, em que as praias do Litoral Norte de São Paulo foram tomadas de assalto por reflexos pouco nítidos de Charles e seu filho… 
Havia um remanso nos dias em que passei entre Ponta Negra e Bahia Formosa… O tom era sempre de brincadeira, mesmo entre os melhores surfistas que encontrei… E eles são muitos e de todas as idades… Talvez aquelas veredas não tenham ainda encontrado a sintaxe competitiva e ultra individualista de São Paulo… Ganhar e destacar-se não me pareceram palavras de ordem, ainda que os surfistas competitivos do Nordeste sempre se encontrem entre os mais aguerridos de qualquer circuito…Bonito, no mar azul turquesa, era cortar a parede como manteiga, gritar no line-ip para o surf bonito e equilibrado de quem se encontrava ao seu lado… Importava, isso sim, dividir alguns e breves momentos do paraíso na terra… 

O vínculo com o mundo: a reconstrução de Alejo


De longe, pelo celular contrabandeado dentro do bolso da única calça, vez ou outra, atualizava-me da notícia a respeito do WQS… Alejo quebrava as ondas na África do Sul… O menino sempre me pareceu possuir elegância e caráter… Adorado pelos amigos, amado pela família… A boa índole em nada reflete a força de seu surf… Alejo está com faca nos dentes… A saída do WCT fez-lhe bem… Não sei bem por que, mas sempre que penso em Alejo, penso em Jeremy… Personalidades distintas, surf extremamente parecido… Os dois meninos, em 2015, reagiram ao tempo de seca… cada qual a sua maneira encontrou-se novamente no surf de competição… 
No Rio Grande do Norte, eu percebi, pela primeira vez, que os dois modos de encarar o mar, para ganhar ou para divertir-se, em nada competem entre si… Há lugar para todos na arrebentação, há lugar para todos… Entre um sorriso e outro, conquistado entre uma manobra e uma dor na lombar… os meus olhos ainda procuram o novo talento do surf potiguar… 


Ps: período de espera em J Bay…. quem sabe, quem sabe…

segunda-feira, 22 de junho de 2015

As faces do tour: algumas considerações sobre a quinta etapa de 2015

As faces do tour.

Escrever em um blog, e hoje eu sei, não acompanha o ímpeto dos primeiros dias, nos quais o desejo de produzir parece infinito…. Escrever todos os dias é tarefa de escritor profissional, quem procura superar os limites do talento pela perseverança, pelo trabalho contínuo, pelo confronto incansável com o texto… Nem escritor, nem profissional, às vezes encontro-me sem vontade de seguir, imerso nos sites especializados… à procura de algo que se revele novo… Quando tenho dificuldade de encontrar, volto para o tempo em que decidi abrir para o mundo o Abaixo da linha…. Depois do lapso… As faces do tour: algumas considerações sobre a quinta etapa de 2015…. e, nessa toada, travessia..

O tempo…

    O tempo da vida e da história parece-me obedecer o movimento de uma onda que arrebenta na areia… Ora retrocede, acumula força e energia, suga tudo que se encontra à sua frente; ora, expande-se para além, avança sobre a praia, ambiciona o limite, o que nunca fora tocado pela água… O ritmo compassado engole tudo e todos… Homens, famílias, sociedade… Entre a conservação e a ruptura, a vida ganha corpo e densidade… Assim também é com o surf… Esse movimento sinuoso do vai e vem do mar, de pêndulo incansável, autoriza-se para o mundo… Se ele não trai o fluxo das coisas, ninguém, pois, deve, por isso, se sentir traído…

    Suspeito que o surf competição como o conhecemos hoje organizou-se sobre três retas paralelas, cujas peculiaridades incidem, quando vistas e totalidade, no cerne das discussões a respeito do atual momento em que vivemos… Identificá-las e ver a sua legitimidade constitui o primeiro passo para avançar numa discussão que, malgrado os bons críticos de sempre, carrega` consigo um cheiro de mofo insuportável…
    Em linhas gerais, com o risco da caricatura e do traço grosseiro, poderíamos desenhar o cenário a partir da seguinte estrutura geométrica, na qual o paralelismo das retas percorrem o infinito sem jamais se tocarem…
    Na primeira reta, visto por trás do movimento, o surf de linha, a borda cravada na água; à frente, os limites do surf sobre o lip, nos altos e longos áreos em rotação… Ao seu lado, a segunda paralela… Ao sul, a herança das ondas grandes, do vínculo mais profundo do surf com a natureza; ao norte, no contrafluxo do tempo, as ondas pequenas do dia a dia e a costura endiabrada das hot dog… Aqui, a rapidez e versatilidade apresentam para o mundo o fundo da prancha… O drop vertical e reto cede lugar a batida em 12 horas… A terceira e última reta, menos objetiva, sustenta-se em terreno movediço e implica, muito mais, um desenho de postura frente à vida do que, propriamente, uma opção por algum estilo… Estamos diante de um dilema entre o competidor voraz e o indivíduo menos compromissado com a a vitórias, títulos e tudo que isso cerca…

    O campo está assim desenhado… e é bastante tentador operar o julgamento pelo desprezo de algumas escolas a fim de eleger qual o melhor e mais significativo surfista em ação… Sejamos francos: esse movimento é, de fato, relevante?
Isso porque as leis da geometria, como sabemos, não sustentam o empirismo da vida… Retas paralelas, no surf mundial, encostam-se e confundem-se… O que, vez ou outra, é visto em unidade… transforma-se num líquido denso, cozinhado por décadas em fogo baixo…. As partes fundem-se no todo e o juízo seguro e apaixonado por uma dessas escolas ou posturas frente à vida parece obsoleto e sem sentido…

A teimosia do juízo e a partidarização do surf mundial..

Os seis quadrantes do surf de competição, pois, apesar de serem hoje questionáveis quando vistos em totalidade única e pura, cativam corações e mentes de modo a angariar, aqui e acolá, partidários devotos de cada uma das “escolas”. "Esse é merrequeiro, mas muito progressista; aquele é insano, mas a base teimosamente aberta compromete o seu desempenho… Outro, detentor da linha mais polida do circuito, está ultrapassado pelos meninos que giram como helicóptero sobre as ondas…”   A quem acostumado a ler os fóruns especializados aqui e alhures, encontra aos borbotões esses enunciados repetidos em circuito infinito… Para mim, tudo besteira… Qualquer discussão que se inicie com a hierarquização das escolas parece-me enfadonha e algo tola… Afinal Felipe não menos surfista que Owen porque o rapaz não domina ainda as ondas de consequência; Parko, em hipótese alguma, deve algo para Gabriel porque não sabe voar em longos e intermináveis áreos.
    Na mesma toada, o mais espetacular dos surfistas, o camarada loiro do Hawaii, seria menos impactante no circuito do que surf cerebrino de Mick? Sério… Dane, acusado com veemência nos fóruns especializados, deve ser considerado um surfista medíocre porque, em algumas baterias pela manhã, não se realiza como espelho de Slater… Dane é um surfista fora de série… Não ganhar baterias não implica que seja um peso para o circuito… Aliás, se assim o fosse, a etapa de Fiji carregaria algo de inexplicável diante da performance do californiano…

Fiji….

Owen venceu porque surfou melhor, porque ensaia, desde que entrou no circuito, um dia como aquele que deu fim ao campeonato… As belas apresentações do início de sua trajetória no tour; seguidas de um incômodo silêncio, rompido por algumas grandes atuações, bissextas é verdade; não o põem como um surfista canhestro, irregular… Surfa ondas de consequência com sangue nos olhos, possui uma batida de costas para onda para lá de vertical e tem bons momentos de surf progressista… em ondas pequenas? Bom, em ondas pequenas deve algo… A boa notícia é que ele é jovem e o surf atual exige um esforço emancipatório pela totalidade… Não basta, hoje, botar exclusivamente para baixo no oco ou voar em meio metro de ondas mexidas de fundo de areia… é preciso fazer tudo isso junto… Não saber fazê-lo em todas às frentes não implica uma derrota ou o nariz torcido desse ou daquele crítico mais afeito a encontrar no mundo o espelho do seu desejo…  Cá com meus botões, acredito que Slater transformou-se no mito que é, pois foi o primeiro, entre muitos, a apontar o bico de sua prancha para tal objetivo; isto é, o desenho do surf completo, sem arestas… Não será o único, será, isso sim, o primeiro de uma enorme e longa fila…
Vejam o percurso de Gabriel e poderemos constatar que poucos surfistas ampliaram com tanta intensidade o seu repertório… Por maior que seja o talento do menino, o caminho trilhado pelo filho do Charles se faz sobre as pegadas do ET… Talvez seja, justamente, o reflexo refratado desses dois percursos que tenham insuflado algumas comparações entre eles… Aqui, vale menos a idade é mais a obstinação… Não duvido que algum dia o rapaz se encontre na arrebentação, ao lado de JJ, na baia sagrada do litoral norte, num dia grande de inverno…
O fato é que a vitória de Owen, conquistada com notável mérito, configura a constatação de uma tendência pelo surf completo, o mesmo movimento que explica a performance de Itálo… Até outro dia, um aerealista especialista em ondas pequenas…

A consequência…

O surf tornou-se mais complexo, menos aderente ao arbítrio estanque… Insistir na pureza das escolas arranha o terreno do preconceito… Aqui, não existe prevalência… Aqui, parece-me, isto sim, existe quem promete avançar para o controle dos tempos, capaz de fundir o aço das três paralelas numa única e equilibradas esfera. Gabriel ainda é, segundo acredito, o surfista mais apto, hoje, para conseguir esse feito…
A conferir…