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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

E Portugal.... um artigo em tempo de espera...

E a promessa de escrever ao fim de cada etapa do tour, como tantas outras, escorreu pelos meus dedos… Assim foi, assim é e, suspeito, pouco poderei alterar o futuro… Afinal, presos, estamos às nossas próprias engrenagens… Entretanto, o tempo tem lá suas armadilhas e a etapa de Portugal, mesmo distante algumas semanas e separada pela notável vitória de Miguel em Maresias, merece ainda uma análise… E, por ser algo teimoso, creio que um texto sobre o que aconteceu em Super Tubos ainda pode resistir à urgência da notícia fresca e fazer-se interessante…
Hoje, tirei o fim de tarde para escrever nesse malfadado blog, sobre os acontecimentos que tomaram de assalto o circuito de 2015 após a etapa de Peniche… Encontro-me em Israel, a trabalho, e com os afazeres realizados nessa segunda-feira, resolvi sentar-me em Yaffo, num café, em frente à praia… Pasmem, camaradas, mas deve haver umas quarenta cabeças no line up… O mar é pequeno, mexido, com ondas de apenas meia manobra… Há pranchões, roupas de borracha coloridas e algumas meninas a disputar o que, temo, seja um dos melhores mares do ano em Tel Avive… Do meu lado esquerdo, uma mesquita do século XII; à minha direita, avistam-se as enormes torres modernas da capital de Israel… Se não estivesse de terno e com um jantar de trabalho marcado, teria alugado, isto mesmo, alugado uma prancha e caído nesse mar…. O tempo, no entanto, é curto e esse artigo tem de sair hoje…
O fato é que, aqui, encontro-me comprimido entre o passado e o futuro, entre tempos distintos, concentrados, à minha frente, na multidão de surfistas israelenses que esperam ter sorte na próxima ondulação… Aliás, o surf, em 2015, nada mais é do que a tentativa de encontrar um equilíbrio entre os tempos que se sobrepõem, de modo insistente e reiterado, no presente… Embora a história moderna do surf, descontada a arqueologia dos antigos reis do arquipélago, tenha pouco mais de meio século, é notável como ela realiza-se metonímia daquilo que todas as antigas cidades do mundo, inclusive Tel Avive, encenam em suas vielas: o incômodo encontro entre a alta tecnologia e edificações para lá de antigas…
No mundinho do surf, esse encontro ganha corpo quando assistimos à evidente disputa entre a borda cravada na água e o domínio do espaço aéreo.. De um lado, a mesquita; de outro, arranha-céus… Em sintaxe do circuito, Mick e, por que não, Adriano versus Medina, Felipe e, quem diria acontecer tão cedo, Ítalo… Embora eu encontre fervorosos defensores, aqui e acolá, dessa ou daquela escola; sejamos honestos, surfista bom, realmente bom, tem de ser capaz de dominar todas as formas de expressão… Slater que o diga…. e, a seguir as pegadas do E.T., o filho de Charles… Qualquer outro pretendente a seguir esse caminho, a despeito do resultado final em Pipe, tem de comer ainda muito arroz com feijão… Afinal, seria possível, sem qualquer perda, eleger um tipo de edifício como mais belo? Vidros espelhados ou tijolos feitos à mão? Faca quente a cortar manteiga ou giros em rotação infinita? Façamos um exercício e separemos os rapazes do tour em categorias… o resultado seria bastante controverso… Quem domina o surf de borda, na coluna da direita…. Quem convive com harmonia sobre a linha da onda, à esquerda… Quem estaria nas duas? Kelly, Medina, Julian, J.J. e Owen… Mas apenas os dois primeiros surfam assim em alta performance competitiva…. pelo menos, durante muitas e muitas etapas… Logo…. vamos para Peniche…

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Portugal é um pais muito diferente daqueles que ocupam o continente europeu, seja porque a sua língua soa estranha até mesmo para os seus vizinhos que discorrem sobre a vida em espanhol, seja por que a terra de Camões exala uma enorme melancolia do império perdido… Ao locomover-se por Lisboa, é possível sentir a devoção por uma passado que não encontra endereço no presente… O culto ao que decorreu, à tristeza do fado e, sobretudo, ao período de glória e força está em toda viela e esquina da capital… E, por isso, não seria um equívoco dizer que a brisa do Tejo, o rio que corta aquela aldeia, atinja, sem muito, as demais regiões de Portugal…  É, camaradas, Peniche, nesse caso, é apenas a comprovação da regra… Uma pequena cidade marítima, desprovida de riquezas materiais, que ainda não encontrou o século XXI… Exceção feita ao campeonato que, por aquelas veredas, ocorre entre os meses de setembro e outubro, a depender do calendário da WSL…
Para nós brasileiros, a viagem para Peniche deveria ser a primeira entre tantas que realizamos para encontrar alguma alegria sobre a prancha… A língua, a entendemos; as pessoas, amigáveis e cordiais; o surf é de primeira, com ondas para todos os lados, habilidade e gostos… Peniche, por exemplo, sempre possui terral, de um lado ou outro da península, não há quadrante que não encaixe em ondas longas e tubulares. Vá lá… o mar é gelado, mas e daí? As roupas de borracha estão cada vez mais leves e, pasmem, confortáveis…
O ritmo de Portugal é lento, os jovens, na maioria, emigraram, tal qual sugeriu o ministro do trabalho do país há cinco anos atrás, para outras veredas a fim de encontrar futuro e ganha pão… Tudo parece algo do Brasil da década de setenta, início dos anos oitenta… Estradas de barro ao lado de extensas rodovias, carroças que concorrem com automóveis e onda, muita onda e sem muitas cabeças na arrebentação… Por isso, é estranho ver o circuito chegar com seus palanques enormes, propagandas de mais de metro com rostos conhecidos estampados por toda parte… Um espetáculo estranho, mas que, noves dentro, noves fora, tem a sua graça, ainda mais no ano mais disputado da história…

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Gabriel ainda não é uma carta fora do baralho, mas, sejamos francos, ele fez uma das mais brilhantes recuperações da história do Tour. Com cabeça no lugar, quem irá pará-lo? Quem? É verdade que Ítalo é um surfista enorme, com reais chances de levar esse caneco um dia, mas aquele malfadado mar em que aconteceu o campeonato estava mais para um derby no jockey club do que uma etapa decisiva da WSL… Vai entender as razões que movem os comissários de prova… Mudam-se os nomes e rostos, permanecem os equívocos e a coluna vertebral de geléia… Ítalo surfou melhor e poderia ter surfado igualmente superior em condições mais adequadas à disputa do caneco em 2015… Não duvido, e acredito, cada dia mais, no surf do Potiguar. Todavia, as ondas deveriam ser à altura da contenda… se não foram, deveríamos investigar… pois Baleal e Pico da Mota quebraram lindo…Para mim, palanques deveriam ser apenas lugares confortáveis para os atletas descansarem, e, não, determinantes para realização de uma etapa… Se o livro de regra diz outra coisa, errado, o livro de regras….
Felipe ganhou, mas não me convenceu ainda… O rapaz de surf limpo e sensivelmente rápido pode ganhar o título em 2015, mas ainda deve provar que consegue encontrar a sintaxe adequada para as ondas de consequência… Se não fizer isso antes de consagrar-se campeão mundial, recairá sobre ele a soberba anglo-saxônica da eterna dúvida sobre um brasileiro… Se ganhar Pipe acima de dez pés, não terá nada a temer; caso não o faça, sei não… O fato é que Felipe é um dos surfistas mais cativantes do circuito…. Surfa com a prancha grudada nos pés e rápido como poucas vezes vi alguém ser… Mas isso é suficiente? 
Uma vez Charles disse-me que Gabriel fora acolhido pelos seus pares… Convenceu-me do argumento, meses antes do título de 2014, com um cem número de exemplos, os quais envolviam J.J.; C.J. e Parko… À época, não entendi muito bem o desenrolar daquela prosa, mas, hoje, vejo que Felipe também foi incorporado… Muito tem se falado sobre o rapaz, e sempre de modo positivo… Todavia, Felipe deve almejar o céu, e, não, um título… Ser completo, ser unânime… Somente Gabriel parece, entre os brasileiros, ambicionar esse status… Nem Felipe, nem Adriano, a despeito da faca que possui entre os dentes, revelam a fome do filho dileto de Maresias por tornar-se história. Ora o espetáculo, ora o caneco… Os dois caminhos, é verdade, são dignos e completamente legítimos… Todavia, mitos são feitos de outra matéria…
O fato é que Felipe burilou o seu surf com tanta rapidez e eficiência que não existe alguém, em sã consciência, capaz de não permanecer congelado frente ao que ele realiza…. Lembro-me de Felipe, ainda garoto, e do seu modo de portar-se durante uma competição de grommets. Era bonito de ver a sua perseverança em divertir-se no mar… Nessa mesma competição, todavia, estava Gabriel com seus quatorzes anos… Medina" queria vencer, queria tanto que era raro vê-lo sorrir entre uma bateria e outra… Havia, nele, não somente uma inteligência competitiva, mas uma obstinação rara para um jovem adolescente… Enquanto Felipe desejar, sobretudo, o espetáculo, algo que ele parece ter sido talhado a realizar, ele não entrará para história… não do mesmo modo que Gabriel almeja entrar e que Slater, de fato, entrou… Felipe precisa dedicar-se às ondas de consequência com a mesma obstinação que deseja ser o melhor surfista de Trestle… Receio que Ricardo saiba disso e impulsionará o seu talentoso filho para a disputa entre os melhores surfistas já existentes no tour… tomara, tomara….

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Adriano, nunca torci tanto por alguém como torci e torço para esse camarada… O caneco de 2015, por mim, seria dado para mineiro sem qualquer razão ou explicação. Simplesmente, acho que ninguém merece mais esse título do que o mais determinado dos surfistas… É notável como ele desenvolveu o seu surf nos últimos dez anos… lindo de ver… Entretanto, nenhum outro surfista desperdiçou tantas chance de liquidar a fatura como Adriano… Toda vez que ele se encontrou à frente na disputa, sem exceção, parece ter perdido algo imprescindível para os campeões: a concentração… Adriano é um caçador, daqueles que ninguém gostaria de ter em seu encalço… Parece ser alimentado pela busca do primeiro lugar, mas parece  não ter encontrado qualquer conforto quando alcança tal objetivo… Uma vez, ainda na primeira perna do tour, sugeri que procurasse Charles para treiná-lo no restante de 2015… Achei uma boa idéia, e ainda acho… mas Gabriel voltou e essa improvável parceria desfez-se em ar rarefeito… Em Pipe, Adriano estará só, à caça… e talvez isso seja suficiente para torná-lo campeão… Se isso acontecer, farei cinco dias de voto de silêncio entre os meus, em reverência ao maior exemplo de obstinação que vi em qualquer esporte, especialmente no surf…  

Que venha o arquipélago, onde crianças separam-se de adultos… E, se estiverem comigo, camaradas, torçamos para que o caneco seja de quem, de fato, o merece….

Ps: amanhã, se conseguir, caio nesse mar….


segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Trestle passou, Cascais passou, mas a vida continua…

Trestle passou, Cascais passou, mas a vida continua…


Quando quero saber algo sobre Futebol, o texto que sempre procuro ler é aquele escrito por Tostão… Craque no campo, na medicina e na língua de Camões… Os últimos tempos do camarada, algo incomodado com a vitória acachapante dos alemães na última Copa do mundo, são dedicados a extensas análises técnicas… Os mistérios da distribuição de um time no campo, a necessidade de encontrar  espaços, o movimento harmônico e coeso de uma linha de defesa frente à fome de gol dos excelentes times europeus… Histórias sobre coragem, covardia e heróis foram, paulatinamente abandonadas para ceder lugar a um linguajar tecnicista, algo similar a um manual de eletrodoméstico escrito por engenheiros japoneses… Perde-se o mistério das narrativas, ganha-se em clareza da argumentação… Não posso dizer que sou um amante da objetividade quando se trata de surf, mas creio que; em tempo de tanta discussão sobre critérios de julgamento e defesas apaixonadas sobre esse ou aquele surfista, essa ou aquela escola; não me parece de todo equivocado percorrer os caminhos da técnica para, se tiver sorte, encontrar algo capaz de lançar luz sobre o momento mais intensamente divergente, no que tange as opinões de quem se dedica a entender as forças operantes no universo do surf, dos últimos tempos…
Acredito, por isso, que tenho sido bastante influenciado pelo senhor que tanto admira Guimarães Rosa, Clarisse Lispector e, no mesmo grau, Lionel Messi porque, justamente, eu, afeito a longas crônicas mediadas pela impressão, outro dia percorria os fóruns especializados no nosso mundinho e, confesso, encontrava-me algo entediado com os juízos calorosos dos camaradas, todos animados pelo colossal aéreo de Gabriel Medina na etapa da França. Do sentimento de maravilhamento, absolutamente justificável, com a manobra, até o momento, do campeonato, brotava um conjunto expressivo de análises sobre a decadência do surf de borda e o julgamento, ancorado na década de oitenta, da bancada que confere as notas de cada bateria. 

Por um desses momentos de pura sorte, encontrei, no meio do turbilhão de postagens, um comentário de um assíduo participante das Ondas cujo texto incidia numa análise, muito interessante, sobre o frontside de Gabriel Medina… O texto era curto e conciso, algo que, quem sabe, um dia eu aprenda a escrever… Os adjetivos e os longos períodos compostos cediam lugar a um emaranhado de observações técnicas sobre a postura do corpo do menino de Maresias quando de seus ataques em esquerdas…. Confesso que há muito tempo não lia algo, embora eu discordasse do resultado da análise, tão estimulante para iniciar uma discussão sobre o atual momento do surf mundial… É verdade que não encontrei a elegância do texto de Júlio Adler, a melancolia de Junior Faria e, atualmente, as interessantes observações produzidas pelo site da Surf Portugal ao término de cada dia de competição…. Sobre esse último, diria que; para quem se interessa por ler algo em língua portuguesa e já conhece a produção dos dois primeiros nomes citados na última frase; é um achado diante da falta de imaginação e do discurso algo publicitário dos sites brasileiros…
O fato é que lá estava eu, como de costume, a navegar pelo maior fórum de Eldorado, quando me deparei com aquelas quatro frases…. quatro frases… Como é possível? Pois bem, o resultado dessa descoberta foi sentido pelo desejo incontido de participar da discussão cujo centro de gravidade fazia orbitar, ao redor do comentário, uma série de análises a respeito do posicionamento do tórax de Gabriel, do peso dos pés dele sobre a prancha, da angulação da projeção do bottom turn….Curiosamente, os inúmeros termos técnicos movidos por uma dúzia de camaradas animou-me…. Todavia, achei que haveria mais coisa a dizer e, por isso, resolvi ressuscitar esse malfadado blog…. Entre moscas e silêncio, aqui me encontro…
Sem razão ou compromisso, acreditei que, em meio às arrebatadoras performances de Gabriel Medina em terras gaulesas, seria bom escrever algo mais extenso e que pudesse auxiliar na decodificação do debate em torno do confronto entre o surf progressivo do Brazilian Storm (Não vejo prejuízo legal de usar essa expressão, ainda que ela se encontre sob proteção das normas da propriedade privada) e o outro da velha guarda, desenhado pela borda cravada na água em longas e perfeitas rasgadas. Apesar de não ter preferência por nenhuma dessas formas de expressão, afinal surf é sempre uma forma de expressão, suspeito que está em jogo, de fato, uma cisão entre estilos, nada mais… Como tal, cada lado da contenda encontra os seus representantes mais emblemáticos, quem, por talento e técnica, inscreve-se como símbolo máximo e representante legitimo desse ou daquele grupo. No caso, a despeito da qualidade dos demais, da atual posição no ranking e da história pregressa, o que move corações e mentes se encontra encerrado entre Mick Fenning e Gabriel Medina.
Não é, pois, incomum encontrar longas análises ou comentários apaixonados sobre a mais recente troca de guarda do circuito profissional… Australianos, americanos, havaianos e, agora, milhares de brasileiros levantam argumentos, aqui e acolá, para sustentar preferências que, muitas vezes, podem ser resumidas numa luta renhida entre os adeptos do estilo e os camaradas que encontram, acima da linha da onda, o novo endereço do surf mundial. Mick seria o rapaz de estilo refinado, centro de gravidade baixo, capaz de alinhar uma manobra na outra com força e velocidade. É claro que o surf dele é bonito de doer os olhos. Embora suspeite que, justamente, pelas mesmas causas que o levaram a definir, com extrema precisão, o seu modo de expressão sobre uma prancha de surf, ele encontrou um limite que jamais lhe permitirá encontrar os espaços abertos pela nova escola…
A compreensão corporal de Fanning foi desenvolvida para alinhavar uma manobra a outra abaixo da linha da onda… A força de seu pé de trás esta limitada pela curvatura do tórax que o faz sempre buscar a rasgada no lipe, e, quando muito, a batida de fundo. Ele não se projeta para além porque se encontra limitado pela conjunção de características de seu surf. Já Gabriel, muitas vezes acusado de possuir um estilo de surf mais grosseiro, justamente porque surfa mais ereto, ainda que com o corpo levemente inclinado para frente, encontrou um modo de surfar menos equilibrado esteticamente, segundo o padrão da escola do surf de borda, no entanto, acredito, mais incisivo… A força de suas pernas, sobretudo, a impingida no pé de trás desconcerta o que sabíamos sobre postura de um surfista…
A diferença, aqui, parece-me ocorrer entre a força de Gabriel e a rapidez de Mick. No geral, acho as manobras do filho do Charles mais impactantes no que tange a energia desprendida em cada movimento. O três vezes campeão mundial, muito mais plástico e rápido, ainda que admire muitíssimo o seu surf, não consegue o mesmo efeito. Todavia, a posição do corpo do australiano somada à enorme técnica revela, na maioria das vezes, mais organicidade às suas manobras... Talvez seja isso que provoque, no terreno da hipótese, a sensação de um surf mecânico para muitos....O que, diga-se de passagem, discordo completamente... Mick surfa muito e parece-me ser a síntese de anos de acumulação… Mick, isso sim, é a melhor e mais emblemática expressão da escola que se realizou com a prancha cravada na água…. Gabriel, por sua vez, nasceu sem ter por trás dele nenhuma tradição que lhe justificasse a existência. O talento dele é o mesmo dos desbravadores… Em Gabriel, tudo está para descobrir-se… E cada ano, ele parece surfar mais rápido sem perder força no seu ataque... No caso, acho que Mick tem mais a aprender com o garoto, pois, como disse, o seu desenvolvimento parece-me ter um limite construído, justamente e de modo algo paradoxal, ao estilo refinado e equilibrado de seu surf... Gabriel não surfa feio ou sem o brilho dos maiores representantes do estilo.... O surf dele, ao contrário, parece um daqueles carros de corrida em que se retiram todos os apetrechos, estéticos ou não, para atingir a melhor performance possível...Veja, o corpo projetado para frente, nos últimos tempos, não busca o aéreo, mas, sim, a porrada na onda mais profunda e violenta... E, de fato, ele parece fazer isso como poucos.



Ps: E Felipe? Sobre Felipe, volto em outro texto….

sábado, 29 de agosto de 2015

Thaiti 2015: o Paraíso não é para todos...

Ditez, que avez-vous vu?

Charles Baudelaire…


Quando a memória trai a nossa intenção de organizar o mundo a partir do desenho de uma agenda imaginada; quando a nossa energia psíquica não se concentra na árdua tarefa de dar sentido e razão a tudo, suponho que algo novo de nossas lembranças pode surgir para, então, lançar luz sobre o que aconteceu e, quem sabe com sorte e inconsequência, sobre o que acontecerá… Há tempos que ensaio voltar a esse blog, lançado às moscas por mais tempo do que o razoável da vida admitiria, a fim de escrever algo sobre a sétima etapa do circuito de 2015… Mais de uma semana correu desde o coroamento do francês e minhas intenções de escrever, aos poucos, eram minadas por motivos débeis, preguiça incontrolável e, sobretudo, o desejo de percorrer os autores de que gosto para ler as impressões deles sobre os dias em que os olhos do nosso mundinho orbitavam ao redor da onda mais temida do mundo…
Muitos dias de espera, ondas razoáveis quando confrontadas àquelas vistas em 2014 compunham o compasso do campeonato… Na água, favoritos, um atrás do outro, cambaleavam… As primeiras posições do ranking tornaram-se, nessa etapa, uma espécie de maldição… Entre os comentários, entrevistas acabrunhadas, eu escutava uma voz grave cortar o burburinho comum ao universo da competição e dizer: "Se estás a lutar pela camisa amarela, tremei, pobre mortal, pois no Thaiti verás apenas os inimigos aproximarem-se!" Adriano, Mick, Felipe, Julian não resistiram ao destino e, sem misericórdia, assistiram a incômoda presença de Oewn, Slater e… Gabriel tomarem corpo e densidade… De uma contenda de quatro surfistas, assistimos antes da etapa de Trestle um aumento considerável de pleiteantes ao caneco… Para quem acompanha esse jogo há muito, o Tour de 2015 desenha-se como o mais acirrado campeonato da história da  ASP… Bem certo que eu possa ser desmentido pelo DataSurf… Afinal, atire a primeira pedra quem nunca viu a memória ser traída pelo maior banco de dado, em língua portuguesa, do nosso esporte… Todavia, se os fatos não aconteceram exatamente assim, deveriam ter sido assim… Muita gente embolada… quem se destacará desse bolo? Cá com meus botões, incerteza…
Não sei bem por quê, mas parece-me que ficamos algo iludidos com o tom das últimas etapas no Thaiti, sobretudo a última, e esquecemo-nos de que o paraíso tem esse nome também porque, nele, somos acometidos por uma sensação de plenitude. O paraíso, pois, pode tornar o mais famélico dos mortais em um homem com sobrepeso, enfastiado e satisfeito com aquilo que tem… Ninguém ou quase ninguém parece resistir ao vento fresco da beleza, ao sabor doce da água de coco, às águas transparentes da Ilha Rei…. Principalmente, quando o mar não nos lembra que, no Thaiti e com determinadas condições de ondulação, o Paraíso torna-se, invariavelmente, Inferno… E como, caro leitor, é de seu conhecimento: a volúpia está no mal, pois no bem… encontramos apenas calma e serenidade…
Em 2015, Trismegisto não deu a honra de sua presença no arquipélago… Despidos do medo que se faz sentimento de sobrevivência, somente aqueles que tinham algo a perder resolveram resistir aos frutos do paraíso… Entre muitos, Jeremias e Gabriel… O primeiro lutava contra o trauma de ter visto a morte de perto, o outro contra o mísero começo do ano e as incertezas que começavam a atormentá-lo… Afinal, medo e vergonha sempre moveram os homens… Jeremias, possivelmente, ganhou a última bateria graças à prepotência do comissário… prepotência que lhe impede de ver, diante dos olhos, as ondas que quebram e contrariam as certezas das previsões… Pelo que soube, houve um dia da janela melhor do que aquele no qual se disputou a última bateria do evento.. Entretanto, as tolices do maior admirador de The Box da história do surf mundial, não retira do francês os elogios e o mérito do que ele fez durante a sétima etapa do Tour… Jeremias surfou com a irresponsabilidade de quem, antes de tudo, necessitava
 provar para si mesmo que ainda está vivo… A proeza, para nossa alegria, se deu durante um campeonato sempre aguardado, mas, creia-me, poderia bem ter acontecido numa praia deserta com ondas grandes… Jeremias queria provar algo para si mesmo, mas acabou por provar algo para o mundo… Confesso que a sua vitória, mesmo contra Gabriel, o meu surfista predileto, exceção feita ao extra-terrestre, provocou-me um sorriso do canto da boca…
E Gabriel? Bom, eu não sei bem o que se passa na cabeça de alguém que se tornou, em menos de cinco anos, uma celebridade mundial… O que o camarada vive somente pode ser medido, de longe, entre uma ilação e outra…O regojizo de ter sagrado-se campeão mundial, conhecido nas esquinas de seu país e apontado pela mídia estrangeira como o legítimo sucessor do maior de todos os tempos provocariam, em qualquer um de nós, sentimentos difusos e uma certa acomodação… O espantoso é Gabriel resistir e surfar com o sangue nos olhos de outras épocas… Surfou com tanta determinação e técnica que, até mesmo quem dele já desconfiava, se viu obrigado a retroceder para, enfim, admitir: se ele quiser, difícil será encontrar alguém a pará-lo…
A segunda perna do ano abre-se sem nenhuma previsão… o que pode acontecer é incerto quanto aos resultados, mas, para mim, Gabriel voltou ao jogo e, se por acaso, vencer o Tour de 2015…. estaremos diante de um dos maiores feitos da história do surf profissional…

Ps: Não gostaria de encerrar sem fazer uma mea-culpa… No início do ano, escrevi sobre Ítalo algo de que me arrependo… Dizia, no conforto de minha poltrona, algo mais ou menos nesses termos: "estamos diante de um surfista admirável, embora a base, incomodamente, aberta provoque em nós um sentimento de desequilíbrio constante apenas redimido pelos enormes aéreos completados, um após o outro… O ano para ele será difícil, porque o ano de estréia no tour é sempre difícil…” Hoje, parece-me que cai na mesma armadilha do comissário… previsões… devemos abandoná-las antes que a realidade nos faça de tolos… Ítalo é um surfista admirável e tudo que disse soa uma enorme bobagem quando o vejo ereto e calmo a atravessar atravessar a bancada da Ilha Rei… O seu teto? Não sei…mas que poderia, em pouco tempo, lutar pelo caneco… isso ele pode…