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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Júlio Adler

Há muito, eu ensaio escrever uma série de textos sobre os camaradas que escrevem sobre surf.. Os meus prediletos… Sou um leitor ávido de textos a respeito do nosso mundinho. Devo confessar que não é fácil encontrar, em meio aos inúmeros blog, revistas ou sites especializados textos que escapam do lugar comum… Sempre achei desagradável ler algo que esperava ler. Texto bom, para mim, é aquele que narra uma história que não consegui ver, que revela algo óbvio que não consegui enxergar. Por sorte, a escassez, nesse caso, não implica ausência de qualidade, pois, quando ela aparece estruturada em sentenças escritas na língua pátria, pasmem, ela não deve nada a ninguém… Entre um campeonato e outro, aproveitarei para publicar alguns textos sobre os meus escritores prediletos… A série começa com aquele que julgo, de antemão, o melhor de todos… Júlio Adler.


O primeiro encontro…

Quem me apresentou os textos de Júlio Adler foi um camarada de longa data chamado Chocolate… O rapaz tinha um bom blog sobre o nosso esporte, o qual abandonou logo que se mudou para Austrália… Lembro-me de um post em que chamava Júlio de mestre e tecia muitos elogios ao Goiabada, o melhor site que encontrei em anos… Pena que anda algo abandonado…
À época, o Goiabada trazia, na primeira página, o arquivo de textos escritos por longos anos, uma diversão… O conjunto de narrativas apontava para tantos lados do nosso universo, tantas facetas dos personagens que integram o imaginário de quem, algum dia subiu numa prancha…. algo impressionante… Havia no Goiabada uma diversidade enorme de temas e abordagens… Por semanas, dediquei-me a ler as análises e perfis cuidadosamente desenhados… De passagem, é preciso afirmar que os textos sobre Neco Padaratz, seja qual forem eles, formavam o mais bonito e sensível corpo de crônicas que li sobre surf.

O segundo encontro…

Por volta dos meus trinta anos, o meu tempo dividia-se entre aulas numa universidade e consultorias para agências de publicidade… Nesse período, a instituição na qual trabalhava promovia, uma vez ao ano, uma semana de palestras para convidados a fim de fomentar nos alunos contato com o mundo que se abria para além da sala de aula… Lembro-me de ter sugerido para direção uma mesa sobre surf… Mesmo sem a repercussão do título do Gabriel e sem a tempestade de mídia a qual estamos, hoje, submetidos… a mesa emplacou… Tomei coragem, e escrevi um comentário em um dos textos do Goiabada… “Caro Júlio Adler; sou professor de uma instituição, faremos uma mesa, gostaria de contar com a sua presença; se topar, mandamos passagem”. Nunca havia visto o camarada, mas acredito que o modo inusitado pelo qual o convidei deve ter contribuído para aceitá-lo.
O primeiro contato com Júlio, confesso, foi uma surpresa. O camarada parece estar sempre em suspensão… Há uma certa displicência em sua postura, volta e meia quebrada por algum comentário preciso ou a manifestação de sua memória sem precedentes. Graças a ele, tornei-me um leitor ávido do Surf Journal, de livros sobre o nosso mundinho.. A palestra, ela mesma, não foi grande coisa, acho que ele deve ter ficado nervoso com tantos alunos, as cadeiras de couro, as toneladas de mármore do edifício… Passamos o dia juntos… Tornamo-nos amigos desde então… Alguns telefonemas esporádicos, planos para fazermos algo juntos…

O estilo…

Antes mesmo de decidir escrever sobre pranchas, praias, vagabundagem e campeonatos, Júlio, entre uma cerveja e outra, disse-me: sempre quero contar uma história de um modo diferente… A sua escrita lembra os grandes cronistas modernos… Os acontecimentos e as suas descrições cedem lugar para uma cadeia de impressões, organizadas por uma escrita limpa, carente de adjetivações, orações subordinadas e conjunções. As frases compõem imagens as quais, na maioria das vezes, são subjugadas a fragmentos de memória… Júlio, acredito, é um legitimo herdeiro da mais elegante tradição na qual se encontram Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e Millor… O olhar dele antevê por uma fresta certos detalhes, desapercebidos por grandes acontecimentos… Não sei bem o que acontece quando elege essa ou aquela cena, esse ou aquele personagem… Para nós, sempre submetidos a uma ordem de informações massificada, repetitivas e repleta de lugares comuns, os textos do Júlio são uma rajada de novidade e inteligência…


Novos ares…

A surpresa é perceber que um camarada como ele possui uma produção impressionantemente diversa e intensa… A empreitada do séries fecham, o live surfe, as colunas em duas revistas especializadas e um blog, insisto, irresponsavelmente abandonado, dão uma dimensão da capacidade de gerar conteúdos a respeito do nosso universo… Uma vez, durante um jantar com João Valente, editor da Surf Portugal, falávamos da nossa incompreensão de não ver publicado um livro com as crônica do Júlio bem como um programa regular em algum site ou tv em que ele pudesse falar das coisas que lhe interessam… Quem sabe? 

A contracultura…

O fato é que o convívio com Júlio, a leitura de sua produção, e os achados deixados aqui e acolá traçam um contorno de uma certa resistência ao fluxo regular das coisas… Há um cheiro de passado em sua abordagem, algo que nos remete aos sentimentos dos anos setenta… Hoje, imersos no tempo das metas, consumo exacerbado e construção de carreiras, Júlio é um desses camarada capazes de nos lembrar que existe outras ondas paras os quais os nossos olhos devem voltar-se…


Ps: para quem não conhece… lá vai o universo em que ele aparece…

colunas na Hardcore e na Surf Portugal…
Site Live Surfe
Youtube: sériesfecham…

espero que se divirtam
no próximo, Júnior Farias




domingo, 26 de abril de 2015

A última utopia do século XX - parte 2

acabei por encontrar no computador a segunda parte... aqui vai..

Em tese, um artigo deveria, pela sua natureza, encerrar-se em si mesmo à medida que os argumentos e as considerações a respeito de um determinado assunto sejam, embora de modo condensado, suficientemente claros. Todavia, há momentos em que, por força ou circunstância, somos levados a retomar certos assuntos, ora para desenvolver um ponto ou outro que, por ventura, necessite de um aprofundamento, ora porque o debate suscitado por um determinado artigo instigue a formulação de novas reflexões.  Esse parece ser o caso de um texto escrito por mim para a Waves, cujo título é “A última utopia do século XX”.
A ocasião, discorri sobre a tensão que há entre as imposições, simbólicas e materiais, características do capitalismo avançado - tais como a competição, a idolatria do indivíduo e a segmentação mercantil - e o aspecto aurático, imaculado que o surf possui no nosso imaginário. O termo utopia, originalmente cunhado por Thomas Morus no ínicio do século XV e cujo significado é o não-lugar - foi evocado por mim para nomear esse processo, justamente, porque ele, segundo acredito, representa esse sentimento de alheamento que o surf provoca em quem o pratica. Afinal, a arrebentação, cheia ou não, imprime em nós que pegamos onda um efeito mágico capaz de purificar-nos da correria cotidiana, das apurrinhações do trabalho e, em alguns casos, dos impasses próprios da nossa vida afetiva.
Não é estranho, contudo, que tais efeitos sejam vistos, na maioria dos casos, como sinônimos de emancipação e liberdade. Afirmar que o desejo por esse sentimento já é, por si só, sintoma de uma forma de sociabilidade própria do capitalismo parece, para muitos, uma heresia. Ora, vejamos o problema mais de perto. Não creio que haja algo mais próximo do mundo das “prateleiras” do que acreditarmos que uma das faces da felicidade se encontra na qualidade dos estímulos sensoriais. O prazer pelo “drop” íngreme, pela sensação provocada pela prancha que desliza sobre a parede de água translúcida ou do repuxo sentido pela violência de uma batida contra lip refletem algo muito próximo do prazer que temos ao comermos um prato bem temperado, ao assistirmos um filme repleto de efeitos especiais ou de ouvirmos uma música no volume máximo. Tudo isso, por estranho que pareça, é sintoma de um mesmo mecanismo de regulação dos nossos sentidos, produzidos pelo mundo mercantil. Acreditar que haja no surf um sentido, por si só, de resistência contra o mundo real é ignorar o vínculo que esse esporte possui como o mundo real.
O fato é que o crescimento do surf com seus novos adeptos não pode ser credenciado, unicamente, as “garras” afiadas da indústria do surf. As propagandas não são, no caso, o estímulo para a prática do esporte. Pelo contrário, se examinarmos a natureza dessas propagandas veremos que elas são feitas para convertidos, e, não, para quem desconhece os códigos e valores dessa tribo. No entanto, é possível que haja um número muito maior de pessoas que pegam ondas, alheias ao nosso pequeno universo, do que indivíduos capazes de elencar, numa rápida piscadela, quais são os dez melhores lugares para surfar esquerdas no Brasil ou os cinco últimos campeões da ASP. 
  Utopia, certamente, é um termo bastante desagradável para quem se agarra, com unhas e dentes,à crença de que o seu esporte preferido é, na verdade, uma a espécie de torre de marfin, limpa e intangível à miséria da vida ordinária. O problema é que somente a palavra Utopia cuja acepção remete para aquilo que desejamos ver materializado, poderia torna possível o seguinte paradoxo: eu desprezo a indústria do surf, a competição, as propagandas em cores berrantes com as quais as marcas apresentam a sua nova coleção para as lojas especializadas, mas gosto muitíssimo da qualidade desses produtos, tais como das roupas de borracha e das bermudas que secam dois segundos depois de eu sair do mar. Ora, o avanço técnico das mercadorias não pode ser desvinculado da concorrência entre as marcas na busca por novos compradores. Entender que há uma separação desses dois elementos que compõem as mercadorias produzidas pela industria do surf é acreditar que o verso de uma folha de papel não seja, na verdade, as costa de sua face.
A questão, por esse prisma, não se dá por encerrada. Mais eficiente do que negar a relação entre o mundo moderno e o surf, creio ser necessário estreitar essa relação para que possamos nos servir do traço utópico de nosso esporte para modificar algo do mundo real. Foi justamente isso que pretendi dizer com a necessidade de criarmos novas carreiras no surf, quando da publicação do meu último texto. Isso porque o surf, enquanto esporte, compreende, ainda que de modo utópico, um desejo de integração e respeito com a natureza. O sentimento de completude que temos no line-up contrasta e muito com o modo predatório com o qual o Capitalismo se desenvolveu nos últimos séculos. 
Responsável pela dizimação de inúmeras populações indígenas, pelo desmatamento de grande parte da mata nativa, pela imposição de um modo de vida que parece, hoje, imperativo para todos nós e, sobretudo, pela destruição de uma super-potência como a União Soviética, o Capitalismo, nos moldes em que ele se apresenta parece não ter adversário à altura. Não sejamos hipócritas ou ingênuos para acreditarmos que um único indivíduo é capaz de resistir ao modo de organização do mundo da mercadoria simplesmente porque ele não come comida industrializada, recicla o seu lixo e não joga papel pela janela do seu carro. Afinal, somente podemos comprar comida orgânica por que ela é produzida e vendida nos super-mercados. E, se reciclamos o nosso lixo, é porque há usinas que vendem esse material para uma indústria que o reutiliza ora para reduzir o seu custo, ora para dizer para o mundo que ela é uma empresa consciente.
Uma andorinha não faz verão. 
Se não há adversário para o Capitalismo, é verdade que a única coisa que ele respeita é o valor do dinheiro. Seria, portanto, tão maléfico e horrendo propor que a indústria do surf amplie a sua área de atuação para além do circuito da nossa tribo e traga para junto de si algo que já é do mundo surf; isto é, o desejo de harmonia e o sentimento de preservação imanente a qualquer pessoa que pega onda? Ao invés de privilegiar, de modo prioritário, a incorporação em seus produtos dos valores da competição, ela poderia dedicar-se à construção de um circuito de consumidores conscientes que se tornariam, de fato, fiéis às marcas em virtude do compromisso que elas tivessem com a nossa utopia.
Possivelmente, essa mudança de foco ampliaria, consideravelmente, a inserção dessas empresas no mercado, a sua interface com o mundo e, consequentemente, a demanda por profissionais eficientes e comprometidos com a causa. Poderia haver, de um modo mais orgânico e eficiente, parcerias com os setores públicos e a sociedade civil organizada a fim de educar a população para a necessidade de preservarmos a natureza, a nós próprios e ao outro, que, pacientemente, espera, ao nosso lado, a série arrebentar.
O Surf pode e deve modificar as relações mercantis, principalmente, naquilo que tange o campo simbólico dos valores. Todavia, isso passa por uma transformação material, em uma palavra: pela reformulação do modo como desejamos nos representar diante de um universo muito mais amplo do aquele que acreditamos pertencer. 

Eu gostaria de ressaltar que não se trata de deixar o surf ou os surfistas em paz. O que proponho é o contrário: não deixemos o mundo em paz. Essa é a razão de eu acreditar no poder transformador da última utopia do século XX.

Ultima utopia do século XX

Primeiro texto publicado... isso faz tanto tempo..

A última utopia do século XX.

Se eu pudesse realizar uma comparação, estritamente pessoal, entre os anos 80, época em que comecei a surfar, e o presente, poderia muito bem demarcar os limites e as diferenças desses dois momentos pelo modo como todos nós, surfistas ou não, passamos a nos relacionar com os valores de eficiência técnica, profissionalismo e individualidade. Para quem tem mais de 30 anos, como eu, as últimas duas décadas do século XX, no Brasil, constituíram para a nossa sociedade uma espécie de período de aprendizado a respeito do capitalismo nos moldes estabelecidos pela globalização. Foi preciso adequarmos a nossa sensibilidade à diversidade de produtos expostos nas prateleiras, ao aumento sensível da concorrência no mercado de trabalho e, sobretudo, a incorporação dos muitos espaços simbólicos de liberdade pela industria do entretenimento e do turismo. Anos atrás seria impossível realizarmos viagens a lugares inóspitos, repletos de boas ondas, através de uma agência de Turismo especializada em surf trip. Tampouco não creio que o surf como o skate, antes manifestação clara da contra-cultura, se tornassem uma opção para uma carreira, desejada e respeitada por inúmeras famílias brasileiras.
O mundo mudou e essa mudança exige uma nova compreensão do que está em jogo, dos desafios que devemos enfrentar para entendermos como nos posicionar frente a um cenário em que necessitamos, cada vez mais, resgatar os sentimentos de liberdade provocados por ondas perfeitas, solidão do line-up e o cheiro da terra molhada de uma trilha que desenboca na praia. Essa necessidade é tão verdadeira que grande parte da industria do surf, muitas vezes de modo errático, constrói a imagem de suas marcas a partir da promessa de que os seu produtos possam vender algo desse sentimento. O surf é, nesse sentido, a última útopia do século XX. 
Para minha geração, por exemplo, que já sentiu a liberdade da primeira juventude escorrer pelos dedos e, hoje, se encontra nos milhares de escritórios das grandes cidades brasileiras, o sonho da ondulação perfeita, em uma praia qualquer, confunde-se com a profissionalização do surf e a torcida pelos bons resultados de nossos competidores. Vivemos um dilema, cindidos, entre o desejo de que a praia se encontre vazia no fim-de-semana e a possibilidade de vermos, acidentalmente, um jovem capaz de tornar-se o nosso mais feroz competidor, apto a trazer para o Brasil o tão esperado título mundial.
Em tese, acho que vivemos uma espécie de cabo de força interno, isto é: ora acompanhamos, pela internet, os campeonatos a espera da vitória de nossos pares, ora gostaríamos que tudo desaparecesse para que  somente o nosso carro fosse visto estacionado em frente ao pico. Sem ninguém, sem competição. Não se trata de fazermos uma escolha, mas de compreendermos que não há escolha a fazer. O surf, hoje, é tanto a disputa da bateria homem a homem como um grupo de amigos que passam parafina em suas pranchas antes de uma caída num mar perfeito. Se não estamos diante de uma opção, é necessário que sejamos capazes de contemplar essa ambivalência, característica do nosso tempo, seja no desenho das mercadorias da industria do surf, seja   quando se projeta uma carreira para um jovem surfista que, embora talentoso, não tenha desejo de ganhar campeonatos. 
É preciso, aqui, entendermos que a construção dessas duas formas de vivermos do surf exige duas carpintarias distintas, pois o que se vende e o que se compra, nos dois casos, são coisas diferentes. O importante é saber: 1) como a indústria deve se posicionar nesse cenário?; 2) como auxiliar os novos surfistas a entenderem o que precisam incorporar para terem êxito nessa profissão, seja como profissional de competição, seja como modelo da liberdade e da utopia?

O fato é que a industria ganhou nas duas últimas décadas um repertório maduro e bastante eficiente no que tange a promoção do surf profissional como sinônimo de competição. É preciso tira o chapéu para toda uma geração que se empenhou com extrema competência em construir um parque industrial pujante e, por isso, admirável. Todavia, é preciso ampliar os horizontes, criar novas formas de ação que tragam para junto de si o sentimento de liberdade, inerente ao esporte. A fim de ilustrar o que digo, lembro de, certa vez, estar junto com minha filha no line-up quando ela tinha sete anos e ver se aproximar um homem, acima do peso e com seus quarenta anos, e dizer-nos: o mar tá pequeno, tem muita gente para disputar poucas ondas, mas eu não pude deixar de dar uma caída hoje. Não aguentava mais um instante dentro do meu consultório. Parabéns por ensinar a sua filha a surfar. Afinal, surf é vida.” Esse dentista, quem nunca mais vi, expressava ali algo muito além dos limites impostos pelo palanque de um campeonato, da voz de um locutor ou da prateleira da surfweare. Ele, possivelmente, queria expressar que, naquele mar flat, se sentia realmente feliz. Como seremos capazes de oferecer para esse dentista produtos que representem esse sentimento? Como devemos nos portar diante de alguém que, alheio ao modo como a industria do surf tem se manifestado nos últimos anos, acredita ser o surf algo essencial para a sua vida?

Porque o problema se delimita nesse circuito, talvez devêssemos pensar em novos modos, além daqueles que possuímos hoje, de construirmos carreiras dentro do surf. Entenda-se: a capacidade que um indivíduo possui de reverter o seu trabalho em lucro para uma empresa. No que tange a industria do surf, é preciso saber que o desejo de compra está ai, do nosso lado, na tela de qualquer computador de quem busca, em meio a papelada do trabalho, saber as condições do mar para sábado. Será isso, de fato, um produto?