Total de visualizações de página

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Moléstia, guerras e Matt tornou-se lider...


E lá estava, em pleno 2016, a caixa de Pandora, cujos males da humanidade se encontravam guardados e protegidos. Guerras, moléstias e discórdias eram, de fatos, os presságios mais temidos, embora, entre tamanha desgraça, houvesse também o surf quebrado, a base aberta e a insânia dos juízes que, do alto de sua bancada, arbitravam sobre quem deveria ou não passar uma bateria… A caixa abriu-se e, com isso, Wilko vestiu-se de amarelo… Sinal dos tempos… sinal dos tempos…

O início…

O ano de 2016 abriu-se, como de costume, com a perna australiana… Três etapas, três bancadas que exigem técnica e borda cravada na água… No mundo do surf, cada país tem uma tradição a zelar, arduamente construída por anos de trabalho intenso de quem se dedica a passar horas imerso na água salgada; lapidada por desenhos geográficos de bancadas que impõem ao surfista uma modelagem para que delas se faça proveito… Quase escuto surgir das profundezas das pedras de Bells um gigante levantar-se e, com voz de trovão, bradar: Arcos, mortais, arcos alongados e profundos…. Somente respeitarei aqueles cujo surf lembrem Mike Peterson, o Grande… Toda vez que, do penhasco, avistamos alguém remar para uma onda, torcemos para que a linha seja desenhada com tranquilidade… Não deve haver ansiedade naquela bancada… Há centenas de anos, as ondas sempre encontram Bells do mesmo modo… E, a despeito de juízes, critérios e outras bobagens, Guigui, Jordy, Caio e Mick foram, para mim, quem entenderam o brado gutural do destemido gigante… Surfaram fácil como se andassem no parque…
O descompasso

A Australia não forja, prioritariamente, um modo de enfrentar as longas direitas que se disseminam no seu litoral… A Australia desenha, isto sim, um estilo, um modo de o corpo projetar-se sobre a prancha, justamente porque uma onda é igual a outra. As linhas da ondulação parecem feitas por jovens que, entre aulas, rabiscam no caderno uma bancada perfeita… Cada país, daqueles que se enquadram no cenário mundial, inscreve os seus numa sorte de grupo, unidos por afinidades eletivas… Ao cavucar o ranking é possível alinhavar os competidores dentro das tradições de cada uma das escolas… Surf de borda, progressivo, sobre a linha, power… 
É claro que, como na vida, nada é puro, imaculado… Há sempre quem transita por cima disso tudo, mas a genética é muito difícil de trair… Por isso, surpreende-me Matt ter chegado, na terceira etapa da perna australiana, reluzente em amarelo… O menos provável herdeiro da grande tradição do estilo aussie, assumiu-se líder do tour… O feito, improvável, deve-se a alguns fatores e, pasmem, nenhum deles parece ter sido elaborado pelo surf praticado pelo rapaz…

A vontade obtusa…

Confesso que o surf de Matt evoluiu, sobretudo, na maneira de atacar o lip. Ele está mais ousado e, sobretudo, mais concentrado… Corre a boca pequena que a razão da transformação é a nova personalização de Yoda em nosso planeta azul; isto é: Glen Hall… Imaginei nunca mais ouvir, em minha vida, o nome do falso irlandês associado ao tour, certo que ele sumiria nos arquivos do Data Surf… Mas, quando menos se espera, a voz sibilante do pequeno ressurge em meus ouvidos para confirmar que qualquer um pode chegar ao caneco… Para a maioria de  nós, imunes à dádiva do talento, o recurso que nos resta é a fé inabalável no trabalho duro… O problema, contudo, encontra-se na constatação de que, no surf como na vida, a força de vontade não é suficiente para sustentar o caminho da glória… Desculpem-me os amigos, cujas inclinações afetivas se sustentam pela ética protestante, mas não consigo, de fato, crer nisso.

Matt precisa comer muito feijão para ser Adriano

O que, outrora, fora razão de admiração com os feitos de Adriano em 2015, agora se transformou em moléstia… Qualquer um se vê no direito de se alçado à ponta do ranking… Basta repetir um certo ritual a cada bateria: respiração profunda, silêncio e uma espécie de concentração medida pela ausência de sorrisos e gestos amigáveis… Nós, humanos, adoramos enxergar no outro algo da nossa fraqueza ao mesmo tempo que essa mesma fraqueza se vê débil diante da força de vontade… 
Com o título de 2015, Adriano, de modo injusto, transformou-se, aos olhos de quem acompanha o tour, no campeão da perseverança. Esquecem-se, entretanto, que o camarada esteve anos entre os primeiros do ranking, que seu surf de borda é muito poderoso e que sua cavada, bem… a sua cavada é a mais impressionante do tour… Impor a Adriano a alcunha de esforçado é uma grande injustiça…
O mesmo não ocorre com Matt… Bom ataque de costas para onda… Entretanto, sejamos francos, alguma coisa não bate entre os resultados obtidos e o surf apresentado… Algumas notas…. não sei se elas seriam, de fato, aquelas… O problema é que o surf de competição, com a precoce e eminente aposentadoria de Mick, deixará o circuito órfão de algo muito importante para o tour: um grande surfista australiano… Vejam como as coisas são… Julien, embora eu o ache excelente, angariou muita antipatia nos últimos anos, justamente porque ganhou certos campeonatos que não se justificariam sequer num papo de bar entre bêbados… O azedume é intenso… Os jovens australianos, por sua vez, parecem muito longe da qualidade dos meninos do Brasil… Tal qual os irmãos da América, está difícil para os filhos pródigos de Mike Peterson aceitarem que a vanguarda se encontra no continente sul-americano… Entretanto, mas difícil é aceitar que os surfistas, cuja língua pátria é a mesma de Shakespeare, não fazem justiça à tradição… Seja ao norte, seja ao sul da linha do Equador… Talvez isso explique porque Conner Coffin é constantemente lembrado como um surfista de Rincon ou como o filho legitimo de Curren… Sejamos franco, bom surfista…. mas… Curren? Jura? A blasfêmia deveria ser punida com castigo severo…
Ao não ter cão, vamos de gato… E Matt é o exemplo de que há felinos demais em 2016… Tomara que JJ, Medina e Felipe acordem para mostrar para o mundo que força de vontade é apenas um componente para liderar o Tour… No mais, talento e caldo de galinha… Aquela bateria do líder com Guigui não sai da minha cabeça…

Ps:


Suponho que todo australiano padecerá de morte na rua enquanto não sabermos o que acontecerá com Jack Robinson ao tornar-se adulto… Minhas fichas estão no menino…

sábado, 26 de março de 2016

Mick e a herança: um texto de despedida?

A repetição.


Nunca conheci um surfista que dominasse a arte da repetição como Mick Fanning… A obsessão desse camarada é digna de nota, sobretudo, pela constância do movimento, pelo vai e vem da prancha, que, de modo quase mecânico, ambiciona preencher os espaços entre a base e o lip, dentro dos limites impostos pela materialidade da água… Engana-se quem, por descuido ou por excessiva necessidade do novo, atribui ao surf dele a alcunha de repetitivo, cansativo ou coisa que o valha… Mick é um artesão, daqueles cuja natureza o inscreve, tal qual uma maldição, na busca de uma rotina, a repetir-se dia após dia… Confesso que esse movimento concêntrico do homem que ganhou, merecidamente, três títulos mundiais, e ainda possui grandes reservas para os próximos anos, provoca-me enorme admiração.
A exuberância de seu surf nasce no contra-fluxo do tempo em que vivemos, o qual está sempre a espreita do novo, do movimento inusitado, capaz de saciar a nossa sede pelo estímulo desconhecido, sem face. Vivemos um período da história em que a nossa sensibilidade fora forjada para sempre esperar a surpresa… Não por acaso, o contorno do território onde o surf de competição faz-se pátria compreende algo do fluxo desse rio. Os elogios à manobra arisca, à descoberta pelo espaço aéreo empreendem uma alteração dos critérios que arquitetam a hierarquia de valores, orientadores do julgamento que define a fronteira a separar as crianças dos adultos. O surf de Mick, aos olhos de quem dita as tendências, sofreu, de algum modo, os efeitos desse novo tempo. Quando voltamos ao ano de 2015, lamentamos a derrota do camarada, a despeito de torcermos para Adriano, menos pela qualidade de seu surf e mais pela compensação das tragédias com as quais teve de conviver durante o tour… 
A beleza do eterno retorno do mesmo

Quando menino, meu pai ouvia, dia sim outro também, um pianista chamado Glen Gould. A vitrola de casa era o endereço desse canadense que odiava Mozart e, vez ou outra, cantarolava durante as gravações de seus discos. Por não conhecer nada da teoria musical e, sobretudo, porque a música clássica me foi, quando criança, algo de difícil digestão, assombrava-me o enorme respeito que meu pai fazia questão de expressar pelo camarada. Dizia ele: estamos diante do pianista mais obsessivo do século XX, meu filho… Atente para o modo como uma nota desdobra-se na outra, sem firula, sem excessos…. Gould e Mick, refratados pela minha subjetividade, possuem o mesmo código genético. A beleza da arte desses dois camaradas encontra-se na harmonia do movimento, na busca pela restituição de um equilíbrio entre o decorrido, o presente e o que está por vir…
A sensibilidade da crescente torcida brasileira, na maioria composta por jovens que se aproximaram do circuito animados pelos ventos da tempestade, parece apontar para o surf do australiano certa impaciência. Encontramos, facilmente, nos fóruns especializados comentários mal-humorados a respeito da linha desenhada por Mick, pela sua relutância de acompanhar o novo tempo de kerrupts, aéreos 360 e sushis rolls… Ao passo que o tour encontra as últimas etapas, vemos, isso sim, o camarada boa praça sempre a disputar o caneco… Malgrado a resistência de alguns comentadores das transmissões on line contra o surf dos brasileiros, há uma enorme reverência a ele advinda do coração do establishment, sobretudo daqueles que o compõem e são versados na língua de Shakespeare.
De onde nasce esse descompasso? Certamente, seria um equivoco atribuir as disputas nacionais a razão primeira dessa cizânia. O fato é que o Brasil é um país jovem no cenário do surf, como sempre nos lembra Nick Carrol… E a despeito da bela história desenhada pelas primeiras gerações pátrias, não possuímos a mesma qualidade da tradição de nossos amigos australianos, americanos e havaianos… Não possuímos porque iniciamos a nossa trajetória em outro diapasão. A consequência desse processo, somado ao contorno da sociedade do espetáculo, é a forja de uma sensibilidade incapaz de medir a qualidade do surf realizado, justamente, pelo viés minimalista. Somente os mais velhos, ou aqueles jovens cujo coração parece ter a idade de um homem nascido dos pactos estabelecidos por vassalos e suseranos, resistem contra a necessidade de que cada nova etapa do tour seja coroada pela manobra da vez, aquela que nunca ninguém viu… 
É preciso, para chegar a uma maturidade de um juízo apto a reconhecer no aperfeiçoamento técnico a beleza que ele merece, rodar muitos quilômetros, carregar o peso das gerações precedentes e, sobretudo, reconhecer que a qualidade nasce do trabalho exaustivo de depuração. Mick, por essa perspectiva, é um mestre, um mestre artesão… Ao transformar a vida na busca ambiciosa pela perfeição, o surf de Mick almeja consertar as arestas por mínimas variações, aprimoradas a cada ano, a cada novo encontro com essa ou aquela bancada… Nada muda, mas tudo é completamente diferente. O camarada parece sempre estar em luta renhida, concentrado em suprimir cada ruído que lhe impede a construção daquilo que imaginou ser a perfeição do movimento. A linha, pois, não é mecânica ou robótica como ouço e leio por ai… Na verdade, Mick, como nenhum outro, assumiu a responsabilidade da decantação como epicentro de sua obsessão…

O efeitos colaterais de um mestre diante dos alunos
  Quando alguém é alçado a categoria de mestre por seus pares, isso não ocorre porque a idade avançada torna-se sinônimo de maturidade.. No surf, mestre é aquele quem aponta caminhos, quem se torna modelo. Quando nos aproximamos da maestria de Mick, identificamos, com facilidade, a sombra de seu melhor amigo… Joel está para o tricampeão mundial como uma extensão… Nasceram juntos, aprenderam a amar o peso da borda na parede lisa na mesma medida que desprezam o movimento interrompido, a agressividade contra a fluidez da prancha… Mas Joel, quem surfa o fino da bossa, não é Mick justamente porque não possui a mesma fúria e velocidade com que o loiro projeta-se na onda… Se as semelhanças são muitas, as diferenças…. bem, as diferenças são maiores e, embora esse não seja um critério absoluto e completamente confiável, faz-se evidente pela quantidade de canecos de cada um…
Com a proximidade da aposentadoria desses dois camaradas, não encontramos, de modo fácil, quem lhes sigam os passos. A nova geração, como aliás é de esperar-se, quer um lugar ao sol… Para isso, o desprezo, mesmo que não vejamos traços dele nos discursos de louvação dos mais novos para os dois amigos da Gold Coast, está lá… na opção por uma radicalidade que se realiza na manobra quebrada, no espaço aéreo… Talvez Adriano e uma porcentagem do surf de Julian sejam uma tentativa de sobrevivência daquilo que foi acumulado por anos de circuito pelos amigos que sempre se consideraram irmãos… Talvez… Mas… confesso que não tenho certeza de serem eles os herdeiros legítimos do legado de Mick… 
Por estranho movimento dialético, a sobrevida dessa tradição se encontra  onde menos se espera, onde jamais poderíamos supor haver refração… Para mim, o camarada que iniciou a revolução, que abriu e pavimentou o caminho do futuro, Gabriel Medina, é quem reivindica para si a continuidade do modo de Mick compreender o surf… Quando vemos a eliminação do filho de Charles na Gold Coast e as inúmeras discussões ao redor daquela onda em que o rapaz abriu mão de um aéreo por um pequeno floater para, depois, repetir por mais de dez vezes o mesmo movimento de backside… temos uma pista… temos mais, temos uma consciência…
Gabriel é um revolucionário, da mesma forja de onde saiu Slater, Irons, Curren, Carroll… Com pouco mais de 15 anos, o camarada assumiu para si a responsabilidade de orientar e conduzir a mais emblemática troca de guarda já realizada no surf de competição… Afinal, não trocamos apenas os nomes do topo do ranking, trocamos, isso sim, o modo de compreender o próprio surf… A consolidação da nova escola, a qual Gabriel ainda é e será, por longos anos, um de seus maiores representantes, parece ter provocado um efeito reverso no rapaz… O bico de sua prancha, hoje, aponta para outras veredas e, para nós, que estamos acostumados a acompanhar o tour e tudo que o envolve, já é possível escutar, aqui e acolá, certos comentários, velhos conhecidos nossos e de Mick, sobre a nova fase do surf de Gabriel após a precoce e, para mim, injusta eliminação na Gold Coast… Repetitivo, mecânico… 
Ora, Gabriel é um astro que brilha num céu sem atmosfera… Intuitivamente, ele, sem perder a fome competitiva, tem alterado a linha do seu surf… Há um certo recolhimento da inventividade, tal qual fomos acostumados a reconhecê-la nos últimos anos, para uma certa tendência pela repetição dos movimentos, pela supressão do ruído… Mick, embora se encontre a um passo de retirar-se para além das imposições do circuito, encontrou o seu herdeiro, onde menos se esperava… Não duvido que, em alguns anos, a linha de Gabriel se encontre balanceada pela contenção minimalista à medida, que sem soluços os sobressaltos, o movimento entre a base e o lipe seja cortado por um áreo cujo nome somente será conhecido depois de ele nomeá-lo…
Que a tradição permaneça… 


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Haverá solução?

O Mote

Em meados do mês de Dezembro, alguns dias depois da vitória de Adriano de Souza, Adrian Kojin publicou um artigo no site Waves a respeito da onda “inventada" por Kelly Stater. À época, surpreendi-me com a quantidade de comentários contrários ao texto do camarada. Em tese, o tom de indignação reinou e, cá com meus botões, pensei que, se não concordava com todos os argumentos levantados por Adrian, havia algo, ali, com que me identificava… Não seriam, no caso, os argumentos sobre o oportunismo do Kelly em revelar ao mundo a sua criação no dia seguinte em que Adriano sagrou-se campeão… Tampouco as teses sobre a mercantilização do surf… Chamou-me a atenção aquilo que, suponho, fosse a razão do cronista ter escrito um texto com tanta indignação: a sensação de que o surf perde, a cada instante, um pouco de sua capacidade de aproximarmo-nos da natureza… Convenhamos, isso não me parece responsabilidade do Surf, mas, sim, da ordem dos acontecimentos que, sem muito aviso, restringe as possibilidade de que temos de reviver as aventuras das gerações que nos precederam. Para driblar o movimento que transforma toda praia deserta em condomínio de fim de semana, precisamos de muito dinheiro e um bom guia de viagem… E isso é uma pena…  Mas Slater não me parece ter nada com isso… nem sujeito das ações, nem responsável pelo perda da inocência…
O fato é que mundo não mudou muito desde o tempo em que eu e, possivelmente, Adrian, a quem não conheço pessoalmente, iniciamo-nos no universo de pranchas e ondas… Na verdade,  apenas assistimos, em 2015, à maturação daqueles traços que, embora não fossem predominantes, estavam presentes no universo de nossa adolescência… Não tenho a intenção de defender o camarada, experiente e com voz própria, sobre o seu artigo… Entretanto, não vejo nenhum mal em discutirmos um pouco as razões que talvez levem a todos nós para a busca, nem sempre com sucesso, pelas raízes do surf, do espírito desbravador de quem sempre acredita existir uma onda melhor por aí e que ela precisa ser descoberta… Onda boa e aventura, máxima felicidade… Talvez a invenção de Slater apenas contemple um parte dessa equação… Para mim, aquela bancada artificial bem que podia ficar no meu quintal… Mas, sejamos francos, o universo do surf envolve tantas coisas que estar em cima de uma prancha, numa longa parede, é, muitas vezes, apenas uma das razões para estarmos nessa brincadeira… Surf é também a roubada de uma viagem, a incerteza da ondulação, a conversa com os camaradas na arrebentação… Possivelmente, Adrian tenha visto na onda do onze vezes campeão mundial, um fenômeno, uma possível traição àqueles sentimentos, arduamente cultivados, por quem aprendeu a surfar no Brasil entre o fim da década de setenta e o inicio dos anos oitenta… A questão é verificar se o passado foi realmente imaculado, livre das inúmeras ameaças contra o espírito livre, característica universal de todo camarada que, alguma vez, molhou os pés na água salgada. Afinal, o debate ao redor da criação de Slater não me parece novo, embora a tonalidade da discussão, isto sim, surpreende-me um pouco…..

Prolixidade ou a busca das raízes…

A década de 80, no Brasil, foi um turbulento encontro das águas, especialmente no universo do surf… Esse foi o endereço em que se cruzaram, de modo mais evidente, os afluentes advindos do passado e do futuro, do romantismo da década de 70 e do anúncio, ainda que de modo prematuro, da matriz genética do Brasil Storm. Não sinto saudades desse tempo além daquela que nasce quando relembramos o tempo de adolescência, época em que o mundo do trabalho parecia tão distante quanto os caminhos que me levavam, morador do Jardim Botânico, a um dia de ondas na Pedra de Guaratiba….
A década de oitenta foi, pois, o período em que se consolidou a industria da juventude no Brasil… Rock Brasil, a criação de uma centena de marcas destinadas a vestir a garotada, a consolidação de novos balneários para a alegria do fim de semana… O espírito era eletrizante com canções que cortavam o ar com a sintaxe própria dos novos tempos… Os temas eram, quase sempre, subjetivos, vinculados às esferas dos sentimentos de cada um de nós frente ao amor, ao elogio de viver intensamente cada momento… É verdade que, vez ou outra, o sismógrafo apontava as consequências dos novos tempos, isto é, a perda de espaço dos moradores da Zona Sul para o restante da incipiente sociedade de consumo, reivindicante, ela mesma, de um lugar nessa areia… O Rio de Janeiro modificava-se rapidamente e, assim, suponho que o restante do país… Queríamos ouvir Australian Crown, sonhar com um verão sem fim, mas queríamos também  usar bermudas da Tico, camisetas da Company, tênis da Redley… Não parecia haver, pelo que me lembre, fronteiras claras entre os segmentos de consumo… Todos ouviam, em grande medida, as mesmas músicas, usavam as mesmas roupas e desejavam uma fatia do bolo. O Rio Quarenta Graus encontrava-se em proto-gênese… O surf iniciava-se na caminhada que o levou a tornar-se indústria… E, como sabe, a produção em massa somente existe porque há consumo em massa… Em tese, isso não é um problema ao não ser quando o resultado inverso desse processo realiza-se pela reivindicação de uma experiência pessoal, de algo particular. Paradoxo contemporâneo que, suspeito, jamais se resolverá plenamente…
O nome do negócio, pois, era viver cada momento com intensidade, sem medo do amanhã, descobrir novas terras e ter, na memória, cicatrizes da aventura… O novo… o que importava, aqui, era o novo… Marcas de uma época que, malgrado o avanço do tempo, ainda se vê presente nos arredores de 2015… Os destinos mudaram de nome e, com o fácil acesso aos aeroportos, de país… Indonésia, América Central, Nova Zelândia…. e, por que não, a fria e distante Islândia… Aventurar-se por aí é o mais importante, ainda mais em tempo de explosão demográfica e pasteurização de sabores… Os surfistas da California, quem sempre estabeleceram o campo das vanguardas no nosso universo, definiram um dos caminhos a serem seguidos… Muito dos talentosos jovens daquelas veredas abriram mão, na última década, de participarem das competições para embrenhar-se numa busca obsessiva pela manutenção de uma sorte de integridade romântica com a natureza… E, como não poderia deixar de ser, o mercado sentiu essa tendência… Lá está a Hurley, anos luz na frente de seus pares, a realizar propagandas com Rob Machado, numa motocicleta indie, a rodar pelo deserto de Baja México… Temo que esse não seja o único exemplo desse processo, o qual, acredito, invadirá, logo mais, com a força de quem percebeu os desejos de seus consumidores, as revistas e as vitrines das grandes lojas. Em muito breve, nós veremos fotos enormes, em shopping centers, de surfistas barbudos em alguma das raras bancadas inóspitas do nosso planeta super habitado. 

A origem da desordem?

Realmente, sensível para nós, quem passávamos o dia na praia em meados dos anos oitenta, já era o prenúncio do porvir: o aumento de pessoas nas praias, nas ruas e nos paraísos descobertos pela fase heróica. Nós emulávamos aquela juventude que segurou, entre os braços, uma prancha de surf Ligth Bolt e que, sem nenhum sinal de cansaço, carregava nas costas pesadas barracas de lona… Saquarema… Saquarema… À medida que a cidade entupia-se de gente, nós apontávamos para o Sul… descobríamos a Macumba, Grumary, Prainha, Pedra de Guaratiba… Hoje, para o meu pesar, com o mesmo crowd que víamos no Posto 10 em Ipanema durante a minha adolescência… 
Àquela época, contudo, ainda havia muitos lugares para viajar, praia descobertas pelos primeiros desbravadores que continuavam, sobretudo no Nordeste e no Sul do país, propriedade, quase exclusiva, de seus poucos moradores… Paracuru, Itacaré, Noronha, Bahia Formosa, Ferrugem, Joaquina… Cada vez que escutava esses nomes, lançava-me para o terreno fértil da imaginação e sonhava com uma viagem de carro, com os camaradas mais velhos, numa Paraty enlameada… Esse era, suspeito, o desejo de muitos… Pé na estrada, praia deserta e onda, muita onda para dar e vender… A década de 80 foi o endereço para a minha geração de uma estranha forma de reagir, expontânea e coletivamente, contra as mazelas da incipiente sociedade de consumo brasileira. Nada digno de nota, pelo menos nos livros de história, porque não havia, é verdade, uma revolução no hábitos capaz de contemplar a maioria de nossa sociedade. Entretanto, seria ingênuo ignorar que algo havia mudado… Quando os estímulos se modificam, modificam-se também as respostas a tais estímulos…
Embora o movimento que introduziu uma certa eletricidade na atmosfera fosse desorganizado, sem liderança anunciada, os efeitos dele faziam-se presente, aqui e acolá, na garotada que deu prosseguimento aos sonhos da geração anterior, ao mesmo tempo em que nós reivindicávamos a autenticidade de um lugar ao sol… Queríamos as roupas de marcas, as pranchas da Cristal Grafitti, surfar como Dadá Figueiredo, mas também desejávamos estar longe daquilo tudo, provar alguma coisa da década de 70…. Outro dia, ao assistir um desses programas do Canal Off, deparei-me com um depoimento de um camarada, vinte e poucos anos, apaixonado pelo surf, a dizer que precisava, em pleno 2015, viver algo daquela geração… O sentimento continua ativo e atravessou mais de trinta anos intactos porque o mundo mudou pouco ou quase nada… Na verdade, temo que as coisas apenas se intensificaram…..
Sem mais nem menos, começaram a pipocar notícias de amigos que se lançavam, em época de inflação galopante e dólar estratosférico, em viagens pelo Brasil. O avião era um luxo inacessível para a maioria de nós… O negócio era meter-se num ônibus, ao som de New Order, e controlar as emoções para aguentar muitas horas numa poltrona desconfortável… As preocupações eram, quase sempre, com a integridade das pranchas no bagageiro… Elas estariam bem? Essa era a pergunta que, de tempos em tempos, invadia as nossas conversas durante o tempo de espera… Foi nesse diapasão que, eu e meus camaradas, decidimos ir para Florianópolis para assistir um dos campeonatos mais importantes da história do surf brasileiro: O Hang Loose de 1987… Joaquina, Joaquina… a praia de dunas brancas e longas esquerdas… Lá, nos extertores da década de oitenta, a nova ordem das coisas materializou-se, pela primeira vez, para mim.

A viagem...

A viagem foi mais longa do que imaginei… Carrol, um dos meus ídolos, participaria do campeonato…. Íamos para o Sul com a certeza de que seríamos testemunhas oculares daquilo a que somente assistíamos no Realce… As Dunas, as ondas e uma multidão na areia e no line up entorpeciam os sentidos… O surf romântico, ao qual eu dedicava-me a procurar, tinha sido deixado de lado… Vejam, eu não tenho nenhuma ressalva à competição, aliás um dos meus maiores prazeres na vida é acompanhar os camaradas em sua busca incessante pelo caneco… Mas, sejamos francos, cinco dias num campeonato é a certeza de que você pegará pouquíssimas ondas… Quem já dividiu espaço na arrebentação com um profissional sabe bem disso…
Na areia, encontrei mais de uma centena daqueles óculos Oakley, que cobriam o todo o rosto com suas lentes espelhadas e coloridas… Senti-me parte de uma tribo, entre iguais, mas senti que o silêncio de uma caída do fim de tarde com os mais próximos tornara-se uma coisa rara… O resultado da contenda importou menos do que a certeza de que deveria ter viajado para outra bancada, longe… milhares de milhas da Joaquina… Recentemente, assisti a uma entrevista com Fred D’Orey… Nela, o dono da prancha vermelha, resumiu aquilo que senti, quando de minha viagem para o Hang Loose: Se tem um campeonato aqui, eu vou para o outro lado… 
Campeonatos, disseminação do surf como atividade de massas,e avanço dos condomínios particulares nas inúmeras praias brasileiras tornaram-me, em meio a alegria de ver os brasileiros tomarem de assalto o circuito mundial, consciente de minha claustrofobia… Por isso, a criação de Slater pode ter parecido, para alguns, uma consequência natural do processo de desenraizamento do surf de sua origem romântica… Nesse caso, aparência não implica realidade… O modo como o maior de todos os tempos arquitetou a sua piscina, por estranho movimento, ambiciona enquadrá-la, ainda que de modo canhestro, no meio da vida selvagem… Artificial, é verdade…. Todavia, integro…
O problema não é, nesse caso, Slater ou a reação de Adrian… Estamos, isso sim, inseridos num mundo onde fazemos o que é possível, pois as impossibilidades parecem ser uma norma com a qual devemos nos acostumar… A população mundial cresceu muitíssimo e, com ela, milhares de pessoas como eu aprenderam a amar o surf… Natural é encontrar as bancadas repletas de pranchas a disputar-lhes as ondas… Qual solução haveria para isso? Vejam, a criação de Slater e a indignação de Adrian parecem ter, para mim, a mesma razão… O que importa, aqui, é saber se a solução desenhada por anos e o sentimento de que perdemos algo de essencial da nossa relação com o mar não se constitui num paradoxo sem solução…


Continua…